GTD no Freeplane
Montar um sistema de captura, processamento e revisão no Freeplane — com as partes que funcionam bem e as que exigem honestidade sobre os limites da ferramenta.
O que você vai aprender
- Montar caixa de entrada, processamento e listas de próximas ações num mapa
- Usar atributos e filtros para gerar as listas por contexto em vez de mantê-las à mão
- Estabelecer uma revisão semanal que caiba em trinta minutos
- Saber onde o Freeplane serve bem a esse fluxo e onde um app de tarefas serve melhor
Antes de começar
- Atributos e Filtros e busca
- Estilos condicionais, ao menos o básico
- Ter lido Prazos e vencimentos ajuda, mas não é obrigatório
GTD no Freeplane🔗
O método de David Allen separa quatro coisas que a maioria dos sistemas mistura: capturar o que aparece, processar o que foi capturado, organizar em listas por contexto, e revisar periodicamente. A parte que quase todo mundo pula é a terceira, e a que faz o sistema funcionar é a quarta.
Um mapa serve bem a três delas. A quarta — consulta rápida em movimento, no celular, na fila do banco — é onde a ferramenta encontra o seu limite, e vale saber disso antes de investir.
Passo 1 — a caixa de entrada🔗
Um mapa inbox.mm separado, com uma raiz só:
Entrada — esvaziar toda sexta
Nada mais. Sem estrutura, sem categorias, sem atributos. O ponto da caixa de entrada é ter zero fricção: um nó novo, o texto do que apareceu, Enter, fechou.
Toda organização aplicada à captura é organização feita no pior momento possível — quando você está no meio de outra coisa. Deixe para o processamento.
Coloque um atalho de sistema que abra o inbox.mm direto. Se capturar custar mais que cinco segundos, você vai capturar na cabeça, e o sistema morre por aí.
Passo 2 — o mapa de trabalho🔗
Um segundo mapa, gtd.mm, com a estrutura estável:
Sistema — <seu nome>
├── Projetos
│ ├── Migrar o site
│ ├── Trocar de plano de saúde
│ └── Curso de estatística
├── Próximas ações
├── Aguardando
├── Algum dia / talvez
└── Referência
A distinção que faz o método funcionar:
| Ramo | Contém |
|---|---|
| Projetos | Qualquer coisa que exija mais de uma ação. O nó é o resultado desejado, não a tarefa |
| Próximas ações | Ações atômicas, começando com verbo, executáveis sem pensar |
| Aguardando | O que depende de outra pessoa, com quem e desde quando |
| Algum dia / talvez | O que você não vai fazer agora e não quer esquecer |
| Referência | O que não é acionável mas você vai querer consultar |
Um item em Projetos sem pelo menos uma ação correspondente é um projeto parado — e detectar isso é uma das funções da revisão semanal.
Passo 3 — os atributos🔗
Registre em Editar → Atributos → Gerenciar atributos do mapa, com valores restritos:
| Chave | Valores | Para quê |
|---|---|---|
contexto | @casa, @rua, @computador, @telefone, @espera | Filtrar pelo que é possível fazer agora |
energia | alta, média, baixa | Escolher tarefa compatível com o seu estado |
tempo | 5min, 30min, 2h | Encaixar tarefa no buraco de agenda que você tem |
projeto | Nome do projeto | Ligar a ação ao resultado |
prazo | AAAA-MM-DD | Só quando há data real, nunca como pressão artificial |
Restringir os valores é o que mantém os filtros confiáveis — sem isso, @computador e @Computador viram dois contextos e as listas ficam incompletas em silêncio.
Resista à tentação de pôr prazo em tudo. Prazo inventado é a forma mais rápida de treinar você mesmo a ignorar prazos — e aí os reais também deixam de funcionar.
Passo 4 — as listas como filtros salvos🔗
Aqui está o ganho real de usar um mapa: as listas por contexto não são mantidas, são calculadas.
Monte e salve estes filtros:
| Nome do filtro | Condição |
|---|---|
@computador | contexto = @computador |
Rápidas | tempo = 5min |
Energia baixa | energia = baixa |
Aguardando | contexto = @espera |
Sem contexto | contexto não existe |
Projetos parados | ramo Projetos sem filho |
O filtro Sem contexto é o mais valioso do conjunto: ele mostra exatamente as ações que escaparam do processamento e, por isso, nunca vão aparecer em nenhuma lista de trabalho.
Como filtros salvos ficam gravados dentro do .mm, eles viajam com o arquivo e reaparecem na barra de filtro toda vez que você abrir.
Passo 5 — estilos condicionais🔗
Deixe o mapa se pintar sozinho a partir dos dados:
se atributo contexto = @espera → estilo Aguardando (cinza)
se atributo energia = baixa → estilo Leve (azul claro)
se atributo prazo existe → estilo Datado (borda)
se ícone = button_ok → estilo Concluído (riscado)
Nenhuma dessas cores é aplicada à mão. Você registra o fato — o contexto, o ícone — e a aparência é consequência. É o que mantém o sistema honesto: um item que parece pendente está pendente.
Passo 6 — a revisão semanal🔗
O método inteiro depende deste passo. Trinta minutos, mesmo dia da semana, com um roteiro fixo:
- Esvazie o
inbox.mm. Cada item vira ação, projeto, referência, algum dia — ou é apagado. A caixa termina vazia; não é opcional. - Rode o filtro
Sem contexto. Toda ação sem contexto é uma ação invisível. Atribua ou apague. - Rode
Projetos parados. Todo projeto sem próxima ação recebe uma, ou volta paraAlgum dia. - Percorra
Aguardando. O que está parado há mais de duas semanas merece uma cobrança ou uma decisão. - Passe os olhos em
Algum dia / talvez. Alguma coisa virou relevante? Alguma coisa deixou de ser? - Commit no Git. Um commit por semana transforma o mapa num histórico das suas prioridades — e permite ver, meses depois, o que você adiou sistematicamente.
O passo 6 é o que o Freeplane oferece e um app de tarefas quase nunca dá: como o .mm é XML de texto, git log sobre o seu sistema de produtividade é um registro honesto de para onde a sua atenção foi.
Onde isto funciona bem🔗
- Projetos com estrutura. Ver o resultado desejado com as ações penduradas nele, na mesma tela, é melhor do que qualquer lista linear.
- Processamento. Arrastar um nó da entrada para o lugar certo é mais rápido que preencher um formulário.
- Revisão. Filtros salvos transformam a revisão semanal num roteiro de cinco cliques.
- Histórico. Git dá auditoria gratuita do sistema inteiro.
Onde não funciona🔗
Vale ser direto sobre os limites:
- Captura em movimento. Não há aplicativo móvel oficial do Freeplane. Capturar no celular exige outra ferramenta — um bloco de notas sincronizado — com um passo de transferência na revisão.
- Lembretes que interrompem. O lembrete do Freeplane depende do programa estar aberto. Para compromisso com hora marcada, o lugar é a agenda, não o mapa.
- Colaboração simultânea. Dois usuários no mesmo mapa é conflito de merge, não trabalho em equipe.
- Recorrência. Não há tarefa que se recria sozinha toda segunda-feira. Isso se resolve com script agendado, ou não se resolve.
Um arranjo comum e sensato: o mapa como sistema de projetos e revisão, um app simples de captura no celular, e a agenda para o que tem hora. O Freeplane cobre a parte estrutural, que é justamente onde os apps de tarefa são fracos.
Erros comuns
- Estruturar durante a captura — organização feita no pior momento possível, e a captura deixa de acontecer
- Deixar a caixa de entrada acumular: uma entrada que nunca esvazia é um monte de coisas, não um sistema
- Pôr prazo em tudo, até você aprender a ignorar prazos
- Manter listas por contexto à mão em vez de gerá-las por filtro, e vê-las divergir na segunda semana
- Registrar ações que não começam com verbo —
relatórionão é ação,redigir o relatórioé - Adotar o método inteiro de uma vez; comece pela captura e pela revisão, o resto vem depois
Você aprendeu
- Captura em mapa separado e sem estrutura; toda organização acontece no processamento
- Projeto é resultado desejado; próxima ação é atômica e começa com verbo
- Listas por contexto são filtros salvos, não listas mantidas à mão
Sem contextoeProjetos paradossão os dois filtros que revelam as falhas do sistema- A revisão semanal é o método; sem ela, o mapa é só mais um lugar onde coisas se acumulam
- Captura móvel, lembretes com hora e recorrência ficam fora — resolva-os com outra ferramenta
Perguntas para reflexão
- Por que a caixa de entrada não deve ter estrutura nenhuma?
- Qual a diferença entre um item em
Projetose um emPróximas ações? - O que o filtro
Sem contextorevela, e por que ele é o mais valioso? - Por que gerar listas por filtro é melhor do que mantê-las à mão?
- Cite duas coisas que este arranjo não faz bem, e o que usar no lugar.
- O que um commit semanal no Git acrescenta ao sistema?
Artigos relacionados
- Gestão de projeto — a mesma mecânica aplicada a um projeto único
- Base de conhecimento pessoal — o lado de referência
- Prazos e vencimentos — a receita de datas
- Atributos — o que torna os filtros possíveis
- Filtros e busca — como montar e salvar as listas
- Versionamento com Git — o histórico semanal