Carga cognitiva
Por que um texto difícil fica mais fácil depois de um pouco de contexto: os três tipos de carga e o que eles implicam para leitura e anotação.
A teoria da carga cognitiva, formulada por John Sweller [sweller1988] , parte de uma restrição bem estabelecida: a memória de trabalho processa poucos elementos simultâneos, e o que a excede não é processado — é perdido.
Os três tipos de carga
Carga intrínseca. Vem da complexidade inerente do material, especificamente do número de elementos que precisam ser considerados ao mesmo tempo. Aprender vocabulário tem carga intrínseca baixa (cada palavra é independente); entender uma demonstração matemática tem carga alta (cada passo depende dos anteriores).
Ela não pode ser reduzida sem mudar o objetivo — mas pode ser sequenciada. É exatamente o que a leitura inspecional faz: monta a estrutura primeiro, para que depois cada detalhe tenha onde se encaixar em vez de flutuar.
Carga estranha (ou irrelevante). Vem da forma de apresentação, não do conteúdo. Diagrama numa página e legenda em outra; texto mal escrito; interface confusa; notação inconsistente. É desperdício puro, e reduzi-la é ganho líquido.
Carga pertinente. É o esforço aplicado à construção do esquema mental — o processamento que produz aprendizagem. Quer-se maximizá-la, dentro do que a capacidade total permite.
A soma das três é limitada. Reduzir a estranha libera espaço para a pertinente; é essa a lógica de todo o programa de pesquisa.
O paradoxo do especialista
Um achado da mesma linha é útil e contraintuitivo: apoios que ajudam iniciantes atrapalham especialistas. Explicações detalhadas, exemplos resolvidos passo a passo e redundância visual reduzem a carga para quem não tem esquema — e acrescentam carga estranha para quem já tem, porque obrigam a processar o que já é automático.
Consequência para leitura: livros introdutórios tornam-se cansativos quando você passa do nível deles, e isso não é impaciência sua. Mudar de material é a resposta correta.
Consequências para leitura
- Ler devagar não reduz carga intrínseca. Se o gargalo é o número de elementos simultâneos, mais tempo por linha não ajuda; o que ajuda é construir o esquema antes, ou dividir o material.
- Pré-requisitos são a intervenção mais eficaz. Cada esquema já formado converte vários elementos em um só, liberando a bancada. É por isso que o segundo livro de uma área é sempre desproporcionalmente mais fácil que o primeiro.
- Alternar entre fontes tem custo. Comparar duas edições, ou texto e vídeo simultaneamente, adiciona carga estranha de integração.
- Anotar durante a leitura é uma troca. Anotar consome memória de trabalho; em material de carga intrínseca muito alta, pode valer mais ler primeiro e anotar depois de fechar o livro — como recomenda a etapa Recite do SQ3R.
Relação com o modelo de Kintsch
Kintsch [kintsch1988] descreve a compreensão em duas fases: construção (ativação ampla e desorganizada de proposições) e integração (poda pela coerência mútua). A integração é o que a carga cognitiva restringe — e ela consome conhecimento prévio.
As duas teorias convergem numa mesma recomendação prática, por caminhos diferentes: repertório prévio é o principal determinante da compreensão de texto difícil, mais do que velocidade, esforço ou técnica.
Onde a teoria é criticada
Vale registrar que a teoria da carga cognitiva não é consenso pacífico. A distinção entre carga estranha e pertinente é difícil de operacionalizar — na prática, costuma-se inferir que a carga era estranha porque o resultado foi ruim, o que é circular. Formulações mais recentes reduziram a ênfase nessa separação em três, mantendo a distinção entre carga intrínseca e o resto.
Isso não invalida as recomendações práticas, que têm apoio experimental próprio; apenas sugere prudência com a versão popularizada da teoria, que costuma apresentá-la como mais assentada do que é.
Artigos relacionados
- Preparar a leitura — sequenciar a carga intrínseca
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Referências
- Sweller, J. (1988). Cognitive Load During Problem Solving: Effects on Learning., Cognitive Science 12(2), pp. 257-285 DOI: 10.1207/s15516709cog1202_4
- Kintsch, W. (1988). The role of knowledge in discourse comprehension: A construction-integration model., Psychological Review 95(2), pp. 163-182 DOI: 10.1037/0033-295X.95.2.163