Prática intercalada
Misturar assuntos piora o desempenho durante o estudo e melhora a retenção depois — o efeito mais desconfortável da literatura sobre aprendizagem.
Prática intercalada é alternar entre tipos de problema, assuntos ou materiais dentro de uma sessão de estudo, em vez de praticar cada um em bloco.
Bloco: AAAA BBBB CCCC
Intercalado: ABCB CACB ACAB
O que os experimentos mostram
Rohrer, Dedrick e Burgess [rohrer2014] trabalharam com alunos de matemática do ensino fundamental, comparando prática em bloco e intercalada dos mesmos problemas, com o mesmo número total de exercícios.
Durante a prática, o desempenho do grupo em bloco foi melhor. No teste aplicado depois, o grupo intercalado teve desempenho substancialmente superior — a diferença chegou a ser da ordem de duas vezes em algumas comparações.
O trabalho de 2014 acrescentou algo importante: o benefício aparece mesmo quando os tipos de problema não são superficialmente parecidos. A explicação anterior — de que intercalar só ajuda a discriminar entre problemas confundíveis — não dá conta sozinha.
Por que funciona
Duas explicações complementares:
Discriminação. Na prática em bloco, você sabe qual método usar antes de ler o problema, porque todos os anteriores usaram o mesmo. A tarefa vira executar o procedimento. Intercalado, é preciso primeiro identificar que tipo de problema é — e essa identificação é justamente o que a avaliação real vai exigir.
Recuperação repetida. Cada vez que você volta a um tipo depois de intervalo, precisa recuperar o procedimento da memória em vez de mantê-lo ativo. Isso aproxima a intercalação do efeito de teste e do espaçamento — os três compartilham a mesma assinatura.
Bjork [bjork1994] agrupa os três sob o rótulo de dificuldades desejáveis: manipulações que degradam o desempenho durante a aquisição e o melhoram na retenção e na transferência.
Aplicação a leitura e anotação
- Revise notas embaralhadas. Ordenar o baralho de revisão por assunto anula parte do ganho. Misture livros e temas.
- Leia mais de um livro por vez. Alternar entre dois ou três títulos numa mesma semana é intercalação, com o custo de recontextualizar a cada retomada — que é exatamente o esforço produtivo.
- Misture tipos de material. Um artigo científico, um capítulo de livro e uma documentação técnica na mesma sessão exercitam a identificação de estratégia de leitura, não só a execução.
- Cuidado com o limite. Alternar a cada parágrafo não é intercalação, é fragmentação: a carga de reentrada supera o ganho. A unidade razoável é a sessão ou a seção, não a frase.
O que a intercalação não é
Não é multitarefa. Alternar entre dois textos dentro do mesmo minuto ou ler com notificações chegando não produz nenhum dos benefícios descritos e produz todos os custos de troca de contexto. A intercalação experimental é sequencial e deliberada: um item por vez, com mudança de item.
Também não é uma recomendação para material inteiramente novo. Quando você ainda não consegue executar um procedimento sozinho, algum bloco inicial é necessário — intercalar antes de haver o que intercalar só aumenta a carga cognitiva. O padrão sensato é bloco curto para adquirir, intercalação para consolidar.
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Referências
- Rohrer, D.; Dedrick, R. F.; Burgess, K. (2014). The benefit of interleaved mathematics practice is not limited to superficially similar kinds of problems., Psychonomic Bulletin & Review 21(5), pp. 1323-1330 DOI: 10.3758/s13423-014-0588-3
- Bjork, R. A. (1994). Memory and metamemory considerations in the training of human beings. MIT Press., pp. 185-205