O que você vai aprender

  • Fazer uma leitura inspecional de qualquer livro em quinze minutos
  • Extrair a tese central de um texto antes de lê-lo por inteiro
  • Decidir com critério se um livro merece leitura completa, parcial ou nenhuma
  • Montar o "mapa mental" que torna a leitura seguinte muito mais rápida

Por que preparar

Quase todo mundo abre um livro na página 1 e começa a ler. É o caminho mais natural — e, para não ficção, quase sempre o mais lento.

O problema é de arquitetura cognitiva. A compreensão de um texto, no modelo de construção-integração de Kintsch [kintsch1988] , depende de você ter uma estrutura prévia onde encaixar cada nova proposição. Quem começa na página 1 sem essa estrutura passa os primeiros capítulos construindo o andaime e o conteúdo ao mesmo tempo. Quem passa quinze minutos montando o andaime primeiro lê o resto com muito menos esforço.

Adler e Van Doren [adler1972] chamam essa etapa de leitura inspecional — o segundo dos quatro níveis de leitura. Não é folhear distraidamente: é um procedimento com passos definidos e um resultado esperado.

O procedimento em sete passos

Reserve quinze minutos e um cronômetro. A pressa aqui é deliberada: ela impede que você caia na leitura linear.

  1. Título, subtítulo e orelha — o subtítulo costuma conter a tese inteira. "Pensar, Rápido e Devagar: uma investigação sobre os dois sistemas que governam a mente" já lhe diz o modelo do livro.
  2. Sumário, com calma — dois a três minutos. O sumário é a planta baixa. Onde estão os capítulos longos? Há uma virada no meio? A ordem é cronológica, temática ou argumentativa?
  3. Prefácio e introdução — autores de não ficção quase sempre resumem o argumento inteiro na introdução, porque sabem que muita gente não passa dali.
  4. Índice remissivo — procure cinco termos que você espera encontrar. Se um conceito central para você tem duas entradas em 400 páginas, o livro não é sobre isso.
  5. Bibliografia — de quem o autor depende? Um livro de divulgação que só cita outros livros de divulgação é uma reciclagem.
  6. Amostragem de capítulos — abra três ou quatro capítulos que o sumário sugeriu como centrais e leia o primeiro e o último parágrafo de cada.
  7. Último capítulo — em não ficção, o fechamento costuma repetir a tese com o benefício de todo o argumento já feito.
Faça os sete passos com o livro fechado sobre a mesa e um papel ao lado. Escrever à mão o que você encontra em cada passo força a reformulação — e é justamente a reformulação que fixa a estrutura.

O produto: a folha de inspeção

Ao final, você deve conseguir escrever, sem consultar nada:

  • A tese em uma frase. "O autor sustenta que ___."
  • A estrutura em três a cinco blocos. Não os capítulos: os movimentos do argumento.
  • Três perguntas suas. O que você quer que este livro responda?
  • A decisão. Ler inteiro, ler os capítulos 3, 7 e 11, ou devolver à estante.

Essa folha é a primeira anotação do livro. Ela cabe em meia página e vale mais que dez páginas de trechos sublinhados, porque é ela que dá endereço a tudo que vier depois.

Ler com perguntas na mão

As três perguntas que você escreveu na folha de inspeção mudam o modo como você lê. Sem elas, a leitura é receptiva: o texto propõe, você acompanha. Com elas, a leitura vira uma busca ativa — você está procurando algo, e procurar é um estado cognitivo diferente de acompanhar.

Isso não é retórica motivacional. É o mesmo mecanismo por trás da fase de Question do SQ3R [robinson1946] : transformar cabeçalhos em perguntas antes de ler a seção. Thomas e Robinson [thomas1972] , ao revisarem o método na variante PQ4R, mantiveram exatamente essa etapa, porque é a que mais consistentemente aparece nos estudos de eficácia.

Quanto tempo isso economiza

Um exemplo concreto. Um livro de 320 páginas de não ficção leva, a 40 páginas por hora de leitura atenta, cerca de oito horas.

  • Sem inspeção: oito horas, e a chance de descobrir na página 200 que só três capítulos interessavam.
  • Com inspeção: quinze minutos, e três desfechos possíveis — abandono (economia de 7h45), leitura seletiva de 90 páginas (economia de ~5h) ou leitura integral, agora ~20% mais rápida porque a estrutura já está montada.

Nenhum desses desfechos é pior que ler às cegas. É por isso que a inspeção compensa mesmo quando você já decidiu ler o livro inteiro.

Erros comuns

  • Transformar a inspeção em leitura — se passou de vinte minutos, você não inspecionou, começou a ler. Use cronômetro.
  • Pular o índice remissivo por parecer burocrático: é o teste mais rápido de se o livro trata mesmo do que você procura.
  • Não escrever nada — a inspeção que fica só na cabeça evapora em um dia e você recomeça do zero.
  • Aplicar a ficção — romances e poesia pedem outra abordagem; aqui o método é para texto expositivo e argumentativo.
  • Confundir com "ler resumo" — resumos de terceiros lhe dão a conclusão sem a estrutura; a inspeção lhe dá a estrutura, que é o que você precisa para ler.

Perguntas para reflexão

  1. Qual dos sete passos você acha que mais economizaria seu tempo, e por quê?
  2. Um livro cuja bibliografia você não reconhece: sinal de originalidade ou de fragilidade? Como decidir?
  3. Se a tese em uma frase não sai, o problema é do livro ou da sua inspeção?

Você aprendeu

  • A leitura inspecional é um procedimento de quinze minutos, não uma folheada
  • Ela produz um artefato escrito: tese, estrutura, perguntas e decisão
  • A estrutura montada antes torna a leitura seguinte mais rápida e mais retentiva
  • Em não ficção, saber a conclusão de antemão ajuda em vez de atrapalhar

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Referências

  1. Kintsch, W. (1988). The role of knowledge in discourse comprehension: A construction-integration model., Psychological Review 95(2), pp. 163-182 DOI: 10.1037/0033-295X.95.2.163
  2. Adler, M. J.; Van Doren, C. (1972). How to Read a Book: The Classic Guide to Intelligent Reading. Simon and Schuster.
  3. Robinson, F. P. (1946). Effective Study. Harper & Row.
  4. Thomas, E. L.; Robinson, H. A. (1972). Improving Reading in Every Class: A Sourcebook for Teachers. Allyn & Bacon.