O que você vai aprender

  • Formular perguntas antes de ler que mudem o modo como você lê
  • Usar as quatro perguntas de Adler em qualquer texto expositivo
  • Transformar cabeçalhos em perguntas de forma sistemática
  • Distinguir pergunta produtiva de pergunta retórica

Por que perguntas funcionam

Ler sem pergunta é um estado receptivo: o texto oferece, você aceita. Ler com pergunta é um estado de busca: você está procurando algo, e a atenção se organiza em torno do alvo.

A diferença aparece na fase de integração descrita por Kintsch [kintsch1988] . Uma pergunta prévia pré-ativa parte da rede de conhecimento relevante — quando a informação chega, já há onde encaixá-la. Sem pergunta, cada proposição precisa encontrar seu lugar por conta própria, e muitas não encontram.

É por isso que a etapa Question aparece em todas as variantes do SQ3R [robinson1946] [thomas1972] . Ela é a que sobreviveu a todas as revisões do método.

As quatro perguntas de Adler

Adler e Van Doren [adler1972] propõem quatro perguntas que qualquer leitor deve conseguir responder ao final de um livro de não ficção:

1. Sobre o que é este livro, como um todo? Não o tema — a tese. "É sobre economia comportamental" é resposta ruim. "Sustenta que o julgamento humano usa dois sistemas e que o rápido erra de modos previsíveis" é resposta boa.

2. O que está sendo dito em detalhe, e como? A estrutura do argumento. Quais são as premissas, que evidência as sustenta, em que ordem o autor as apresenta e por quê.

3. O livro é verdadeiro, no todo ou em parte? A avaliação — e ela vem depois da compreensão, não durante. Adler é enfático nisso: discordar de um autor que você ainda não entendeu não é crítica, é ruído.

4. E daí? A consequência. O que muda no que você faz ou pensa. Um livro que responde bem às três primeiras e mal à quarta foi um bom livro para outra pessoa.

Escreva as quatro respostas em uma folha só, ao terminar o livro, sem consultar as notas. O que você não conseguir responder indica exatamente onde a leitura foi superficial — e onde vale a pena voltar.

Perguntas antes: transformar cabeçalhos

O procedimento mecânico, aplicável a qualquer texto com estrutura de seções:

CabeçalhoPergunta
"A curva do esquecimento"O que é a curva do esquecimento e o que ela prevê?
"Limitações do estudo"Que limitações os próprios autores admitem?
"Digital versus papel"Em que condições cada meio é melhor, segundo o autor?

Leva quinze segundos por cabeçalho e transforma a leitura de cada seção em uma busca por resposta. Ao final da seção, você fecha o livro e responde. Se não conseguir, releu-se sem ler.

O ganho não vem da qualidade da pergunta — vem de haver uma pergunta. Mesmo perguntas triviais funcionam, porque criam a condição de busca.

Perguntas durante: as cinco que sempre cabem

Independentemente do texto, cinco perguntas rendem quase sempre:

  • Qual é a evidência? Se o autor afirma algo empírico, onde está o estudo?
  • O que isso exclui? Uma afirmação que não exclui nada não afirma nada. "Meditação melhora o bem-estar" — em que condição seria falso?
  • Quem discorda, e por quê? Se o autor não menciona oposição, desconfie.
  • Isso é definição ou descoberta? Muita coisa que parece achado empírico é consequência de como o termo foi definido.
  • Onde isso conflita com o que eu já sei? O conflito é a melhor porta de entrada para a nota própria.

Perguntas produtivas e perguntas retóricas

Nem toda pergunta ajuda. Uma pergunta produtiva tem três propriedades:

  1. Tem resposta possível no texto (ou a ausência dela é informativa).
  2. A resposta poderia ser diferente — se só há uma resposta concebível, não é pergunta.
  3. Você saberia reconhecer a resposta ao encontrá-la.

"Este livro é bom?" falha nas três. "O autor sustenta a tese com evidência experimental ou com exemplos anedóticos?" passa nas três, e a resposta muda o quanto você deve confiar em tudo o mais.

Perguntas em leitura técnica

Para manuais, documentação e textos de método, um conjunto diferente funciona melhor:

  • Qual problema isso resolve? — antes de "como funciona"
  • O que acontece se eu não usar? — delimita o valor real
  • Qual é o menor exemplo completo? — força a separação entre essencial e acessório
  • Onde isso quebra? — os limites são mais informativos que os casos felizes

Erros comuns

  • Perguntar depois de ler — a pergunta prévia é o que muda a leitura; a posterior só testa
  • Perguntas grandes demais — "o que é a consciência?" não guia leitura nenhuma
  • Perguntas de sim ou não sem desdobramento — respondem-se rápido e não organizam a atenção
  • Avaliar antes de compreender — discordar de um argumento não entendido é ruído
  • Não escrever as perguntas — perguntas mentais desaparecem em dois parágrafos

Perguntas para reflexão

  1. Por que Adler insiste que a pergunta 3 venha depois da 2?
  2. Qual das cinco perguntas "que sempre cabem" você menos usa hoje?
  3. Uma pergunta cuja resposta você não reconheceria ao encontrar é uma pergunta útil?

Você aprendeu

  • A pergunta prévia pré-ativa o conhecimento relevante e cria estado de busca
  • As quatro perguntas de Adler cobrem tese, estrutura, verdade e consequência
  • Transformar cabeçalhos em perguntas custa quinze segundos e muda a leitura da seção
  • Pergunta produtiva tem resposta possível, resposta não óbvia e critério de reconhecimento

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Referências

  1. Kintsch, W. (1988). The role of knowledge in discourse comprehension: A construction-integration model., Psychological Review 95(2), pp. 163-182 DOI: 10.1037/0033-295X.95.2.163
  2. Robinson, F. P. (1946). Effective Study. Harper & Row.
  3. Thomas, E. L.; Robinson, H. A. (1972). Improving Reading in Every Class: A Sourcebook for Teachers. Allyn & Bacon.
  4. Adler, M. J.; Van Doren, C. (1972). How to Read a Book: The Classic Guide to Intelligent Reading. Simon and Schuster.