O que você vai aprender

  • Distinguir os três tipos clássicos de fichamento e saber quando usar cada um
  • Produzir uma ficha que continue utilizável anos depois
  • Registrar a diferença entre o que o autor disse e o que você pensou
  • Integrar fichas a um sistema maior sem que virem um arquivo morto

O que é e de onde vem

O fichamento é a prática, consolidada na universidade brasileira, de registrar em fichas separadas o conteúdo de cada obra lida. Nasceu do fichário de papel — literalmente cartões catalográficos — e sobreviveu à digitalização porque resolve um problema que continua existindo: reencontrar.

A diferença entre um fichamento e um resumo é a unidade. Um resumo condensa uma obra inteira em um texto. Um fichamento fragmenta a obra em unidades endereçáveis, cada uma com a referência completa. É a mesma diferença entre um relato de viagem e um conjunto de fotos com legenda e coordenadas.

Se você conhece o Zettelkasten, vai reconhecer o parentesco. O fichamento é o ancestral direto: nota atômica, referência completa, arquivo consultável. O que o Zettelkasten acrescentou foi a ligação entre fichas.

Os três tipos

Fichamento de citação

Transcrição literal, entre aspas, com página exata.

"A leitura é ao pensamento o que o exercício é ao corpo." (ADLER; VAN DOREN, 1972, p. 14)

Quando usar: quando a formulação do autor é insubstituível — uma definição precisa, uma frase que você vai citar, um trecho polêmico que precisa ser reproduzido fielmente.

Regra inviolável: aspas e página, sempre. Uma citação sem página é inutilizável em trabalho sério, e uma citação sem aspas vira plágio acidental seis meses depois, quando você já esqueceu que copiou.

Fichamento de conteúdo

Reformulação com suas palavras do argumento de um trecho.

Adler distingue leitura por informação de leitura por compreensão. A primeira não muda o leitor; a segunda exige que ele se aproxime do nível do autor. (p. 14-16)

Quando usar: na maior parte do tempo. É o tipo mais trabalhoso e o mais valioso, porque a reformulação é o processamento. Chi e colaboradores [chi1994] mostraram que estudantes induzidos a explicar o material com as próprias palavras — auto-explicação — compreendem substancialmente mais do que os que apenas leem com atenção.

Fichamento de comentário

O que você pensa sobre o trecho.

Comentário: a distinção de Adler pressupõe que o leitor consegue avaliar a própria compreensão. A literatura sobre calibração metacognitiva sugere que não consegue — ver Dunlosky.

Quando usar: sempre que houver algo a dizer. É o que transforma um arquivo de citações em pensamento próprio.

O erro mais destrutivo do fichamento é misturar os três tipos sem marcação. Em dois anos você não vai lembrar se aquela frase é do autor ou sua — e a confusão entre as duas coisas é a raiz da maioria dos plágios não intencionais.

Anatomia de uma ficha

FICHA 042 — Adler & Van Doren, How to Read a Book (1972)
Tipo: conteúdo
Local: cap. 1, p. 14-16
Assunto: níveis de leitura; leitura ativa

[CONTEÚDO] Adler distingue ler por informação de ler por
compreensão. Na primeira, o leitor absorve o que já é capaz
de entender. Na segunda, há desnível entre autor e leitor, e
a leitura é o trabalho de reduzir esse desnível.

[CITAÇÃO] "A leitura é ao pensamento o que o exercício é ao
corpo." (p. 14)

[COMENTÁRIO] Isso implica que ler algo fácil demais não é
leitura no sentido forte de Adler. Consequência prática: se
não há esforço, não há aprendizagem — que é o argumento das
dificuldades desejáveis de Bjork, chegando por outro caminho.

Ligações: → ficha 019 (SQ3R), → ficha 077 (dificuldades desejáveis)

Cinco elementos obrigatórios: identificador, referência completa, localização exata, tipo marcado e assunto. Os três blocos entre colchetes podem aparecer em qualquer combinação; o que não pode é aparecer sem rótulo.

Quantas fichas por livro

Não há número certo, mas há uma faixa saudável: uma a três fichas por capítulo de não ficção. Menos que isso e você provavelmente está resumindo, não fichando. Muito mais e você está transcrevendo.

O sintoma de excesso é fácil de reconhecer: as fichas seguem a ordem do livro e cobrem tudo. Um fichamento não precisa cobrir o livro. Ele precisa capturar o que você vai querer de volta.

Fichamento digital sem perder o essencial

Em texto puro, uma ficha por arquivo, com nome previsível:

042-adler1972-niveis-de-leitura.md

O que costuma se perder na transição para o digital:

  • A página. Copiar e colar de um PDF perde a referência. Configure o leitor para incluir a página na cópia, ou cole a página manualmente antes de qualquer outra coisa.
  • A distinção citação/conteúdo. Copiar e colar produz citação; digitar produz conteúdo. Como o digital torna o copiar-e-colar trivial, o fichamento digital tende a degenerar em transcrição. Marque com rigor.
  • O limite físico. O cartão de papel tinha tamanho fixo, o que forçava concisão. Sem ele, imponha o limite você: se a ficha não cabe em uma tela, são duas fichas.

Erros comuns

  • Fichar tudo — o fichamento exaustivo consome mais tempo que uma segunda leitura e rende menos
  • Citação sem página — inutiliza a ficha para qualquer uso acadêmico ou de escrita
  • Não marcar o tipo — a confusão entre voz do autor e voz sua é irreversível
  • Fichas sem assunto — sem campo de assunto, o arquivo só é navegável por obra, que é a organização menos útil
  • Arquivo que nunca é consultado — se você não voltou a nenhuma ficha em seis meses, o problema é de indexação, não de disciplina

Perguntas para reflexão

  1. Por que a ficha de comentário é a que mais se perde e a mais valiosa?
  2. Uma ficha de conteúdo que reproduz a estrutura de frases do autor é conteúdo ou citação disfarçada?
  3. Como você organizaria fichas de trinta livros sobre o mesmo tema para escrever um texto?

Você aprendeu

  • Fichamento fragmenta a obra em unidades endereçáveis com referência completa
  • Três tipos — citação, conteúdo e comentário — sempre marcados explicitamente
  • Reformular com as próprias palavras é o que produz compreensão, não a transcrição
  • Uma a três fichas por capítulo; fichar tudo é sinal de que o critério está faltando

Artigos relacionados

Referências

  1. Chi, M. T. H.; de Leeuw, N.; Chiu, M.-H.; LaVancher, C. (1994). Eliciting self-explanations improves understanding., Cognitive Science 18(3), pp. 439-477 DOI: 10.1207/s15516709cog1803_3