Fichários e commonplace books
Ficharios e commonplace books: da Antiguidade aos cadernos de lugares-comuns modernos, e como organizar trechos coletados.
Antes de começar
- Ter lido Anotar é pensar
O que você vai aprender
- Montar um caderno de lugares-comuns no sentido histórico do termo
- Usar o método de indexação de Locke
- Distinguir commonplace book de diário e de fichamento
Tradição antiga
A prática de colecionar e organizar conhecimento através de commonplace books tem raízes na Antiguidade. Aristóteles já organizava seu pensamento em kolemmata — registros sistemáticos de ideias que sustentavam sua filosofia. Cícero e Quintiliano ensinaram a arte da commonplacing como parte essencial da educação retórica: oradores precisavam ter acesso rápido a exemplos, argumentos e citações para uso em discursos.
O sistema funcionava assim: durante a leitura, notas eram extraídas e organizadas em categorias —flores retóricas, exemplos históricos, máximas morais. Esse arquivo pessoal servia tanto como memória externa quanto como gerador de novas ideias através das conexões que permitia criar.
Moss [moss1996] argumenta que os commonplace books não eram apenas ferramentas de armazenamento, mas instrumentos que estruturavam o próprio pensamento renascentista. A forma como você arquivava determinava como você pensava.
Renascimento e a era da imprensa
Com a invenção da imprensa, a disponibilidade de livros cresceu dramaticamente. Commonplace books tornaram-se ainda mais importantes: agora havia mais material para processar e menos tempo para decorar. Autores como John Locke (1632-1704) e Robert Boyle (1627-1691) mantinham commonplace books extensos e sistemáticos.
Yeo [yeo2014] documenta como os diários científicos de virtuoses inglêses do período 1650-1720 funcionavam como sistemas de gestão de conhecimento. Boyle, famoso por seus trabalho em química, mantinha cadernos de anotações organizados por tópico que alimentavam sua pesquisa experimental.
O método de Locke
John Locke, em seu "New Method of Making Common-Place-Books" [stolberg2014] , propôs um sistema alfabético com categorias temáticas. Em vez de organizar por autor ou livro, Locke organizava por conceptos — todas as notas sobre "causalidade" ou "liberdade" iam juntas, independente da fonte.
O método de Locke ilustra um princípio fundamental: a estrutura de armazenamento afecta a recuperação. Se você só consegue encontrar notas relendo seus livros originais, seu commonplace book não está funcionando como memória externa.
Commonplace books modernos
A tradição do commonplace book continua viva em diferentes formas. Blogs de citações, cadernos de leitura em redes sociais, e sistemas de anotações digitais como o Zettelkasten são todos descendentes diretos dessa prática centuries-old.
Para criar um commonplace book moderno efetivo, algumas práticas são úteis: escolher um formato sustentável (digital ou físico), organizar por conceptos, não por fonte, revisar regularmente para encontrar conexões, e escrever reflexões próprias, não apenas transcrições.
Erros comuns
- Confundir commonplace book com diário pessoal
- Copiar sem indexar, o que torna a coleção inconsultável
- Indexar por assunto tão fino que cada entrada vira uma categoria
- Colecionar citações sem nunca voltar a elas
Você aprendeu
- Commonplace book é coleção indexada de trechos alheios, com comentário próprio
- O método de Locke indexa pela primeira letra e primeira vogal do termo
- A indexação é o que separa coleção de amontoado
- A tradição vale pelo que ela força: reler para classificar
Perguntas para reflexão
- O que distingue um commonplace book de um diário?
- Como funciona o índice de Locke?
- Por que a indexação é a parte essencial?
- O que a tradição força o leitor a fazer?
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Referências
- Moss, A. (1996). Printed Commonplace-Books and the Structuring of Renaissance Thought. Oxford University Press.
- Yeo, R. (2014). Notebooks, English Virtuosi, and Early Modern Science. University of Chicago Press.
- Stolberg, M. (2014). John Locke's 'New Method of Making Common-Place-Books': Tradition, Innovation and Epistemic Effects., Early Science and Medicine 19(5), pp. 448-470 DOI: 10.1163/15733823-00195p04