Escolher o que ler
Critérios práticos para montar uma fila de leitura que serve aos seus objetivos, em vez de acumular livros por inércia ou modismo.
O que você vai aprender
- Distinguir leitura por projeto de leitura por curiosidade — e reservar espaço para as duas
- Avaliar um livro antes de comprá-lo com três testes rápidos
- Manter uma fila de leitura pequena o bastante para ser real
- Reconhecer os vieses que fazem você ler o livro errado
O problema não é falta de livros
Um leitor com trinta anos de vida adulta e um ritmo confortável de vinte livros por ano lê seiscentos livros. É pouco. São publicados mais de seiscentos títulos de não ficção em português por mês.
A conclusão prática é desconfortável: a escolha importa mais que a velocidade. Ganhar 20% de velocidade de leitura acrescenta 120 livros à sua vida. Escolher melhor pode mudar quais seiscentos você lê — o que é uma diferença de outra ordem de grandeza.
Duas filas, não uma
Misturar tudo numa lista só é o erro mais comum. Separe:
A fila de projeto. Livros que servem a algo que você está construindo agora — uma habilidade, uma decisão, um texto que vai escrever. Têm prazo e critério de sucesso. Aqui a leitura pode ser seletiva e agressiva: você extrai o que precisa e segue.
A fila de formação. Livros que não servem a nada imediato e por isso mesmo formam o repertório que você vai usar daqui a dez anos. Aqui não há pressa, e a leitura completa e lenta faz sentido.
A proporção é pessoal, mas uma regra útil é 70/30 a favor do projeto quando você está construindo algo, e o inverso quando não está.
A leitura de formação é a que primeiro é sacrificada quando a vida aperta — e a que mais custa caro perder, porque seus efeitos aparecem tarde demais para você associá-los à causa.
Três testes antes de comprar
Teste da bibliografia. Abra as referências. Um livro de não ficção sério aponta para trabalhos primários. Se todas as fontes são outros livros de aeroporto, você está lendo uma reciclagem de reciclagem.
Teste do capítulo aleatório. Abra no meio e leia duas páginas. Se você não consegue acompanhar sem o contexto anterior, o livro é denso — ótimo, mas exige a fila certa. Se você acompanha perfeitamente e não aprende nada, o livro é diluído.
Teste da promessa. Leia a orelha e escreva o que o livro promete entregar. Depois procure no sumário onde exatamente isso é entregue. Livros ruins prometem no marketing e nunca cumprem no corpo — o sumário denuncia.
Vieses que sabotam a escolha
- Viés de novidade. Livros com menos de um ano ainda não passaram pelo filtro do tempo. Nem por isso são ruins — mas a proporção de lixo é maior. Uma heurística conservadora: para cada livro do ano, leia dois com mais de dez anos.
- Viés de recomendação social. "Todo mundo está lendo" mede popularidade, não adequação a você. A pergunta certa não é "é um bom livro?" mas "é um bom livro para o que eu estou fazendo agora?".
- Viés do investimento. Você comprou, então precisa ler. Não precisa. O dinheiro já foi; o tempo ainda não.
- Viés da estante. Ler o que está à mão em vez do que serve. Combate-se mantendo a fila de projeto fisicamente separada.
Como manter a fila pequena
Uma fila de leitura só é útil se você consegue vê-la inteira. Sete títulos é um bom limite prático.
O mecanismo é simples: para entrar um livro, sai um. Quando você recebe uma recomendação, não a coloca na fila — coloca numa lista de espera separada, que pode ter trezentos títulos e não gera culpa nenhuma. A fila só é reabastecida quando um livro sai dela, e nesse momento você olha a lista de espera com os olhos de hoje, não com os de quando anotou.
Esse desenho tem uma vantagem discreta: recomendações que pareciam urgentes há seis meses frequentemente não sobrevivem à revisita. A lista de espera funciona como um filtro temporal gratuito.
Registro mínimo
Para cada livro que entra na fila, três campos bastam:
| Campo | Exemplo |
|---|---|
| Por que este livro | "Preciso entender viés de sobrevivência para o texto sobre startups" |
| O que espero extrair | "Dois ou três exemplos históricos bem documentados" |
| Critério de saída | "Achei os exemplos, ou li 3 capítulos sem achar" |
O terceiro campo é o mais importante e o mais ignorado. Sem critério de saída, todo livro vira leitura integral por omissão.
Erros comuns
- Fila infinita — uma lista de 200 títulos não é uma fila, é um depósito; separe fila de lista de espera
- Comprar como forma de ler — a compra dá a sensação de progresso sem nenhum progresso
- Ignorar o próprio estado — livro denso em período de exaustão vira abandono, não formação
- Escolher só por tema — a qualidade do autor pesa mais que a adequação do assunto
- Nunca reler — releitura de um livro excelente costuma render mais que uma primeira leitura de um livro mediano
Você aprendeu
- Escolher bem importa mais que ler rápido, porque o tempo total é fixo e pequeno
- Separe a fila de projeto (com prazo e critério) da fila de formação (sem pressa)
- Bibliografia, capítulo aleatório e promessa são três testes rápidos de qualidade
- Fila curta com lista de espera separada filtra recomendações pelo tempo, de graça
Artigos relacionados
- Preparar a leitura — o passo seguinte, depois de escolher
- Abandonar um livro — o critério de saída na prática
- Por que ler (e por que anotar) — os fundamentos
Referências
- Adler, M. J.; Van Doren, C. (1972). How to Read a Book: The Classic Guide to Intelligent Reading. Simon and Schuster.
- Dunlosky, J.; Rawson, K. A.; Marsh, E. J.; Nathan, M. J.; Willingham, D. T. (2013). Improving Students' Learning With Effective Learning Techniques: Promising Directions From Cognitive and Educational Psychology., Psychological Science in the Public Interest 14(1), pp. 4-58 DOI: 10.1177/1529100612453266
- Sweller, J. (1988). Cognitive Load During Problem Solving: Effects on Learning., Cognitive Science 12(2), pp. 257-285 DOI: 10.1207/s15516709cog1202_4