O efeito de geração
Material que você produz é lembrado melhor que material idêntico que você apenas lê — o fundamento de toda a diferença entre copiar e reformular.
O efeito de geração é o achado de que informação produzida ativamente pelo sujeito é retida melhor do que a mesma informação apresentada a ele para leitura.
O experimento original
Slamecka e Graf [slamecka1978] apresentaram pares de palavras em duas condições:
- Ler:
rápido — veloz - Gerar:
rápido — v _ _ _ _(regra: sinônimo)
Em ambas, o participante termina com o mesmo par na cabeça. A diferença é apenas quem produziu a segunda palavra. A condição de geração produziu retenção consistentemente superior, num conjunto de cinco experimentos que variavam a regra (sinônimo, antônimo, rima, categoria) e o modo de teste.
O efeito é notável pela razão custo-benefício: gerar leva alguns segundos a mais e melhora a retenção sem nenhuma outra mudança no material.
Por que importa para anotação
Toda a distinção entre nota literal e nota conceitual repousa sobre esse efeito. Copiar uma frase do autor é a condição "ler". Reformulá-la com as próprias palavras é a condição "gerar".
Chi e colaboradores [chi1994] demonstraram uma versão mais forte do fenômeno com material complexo: estudantes solicitados a explicar cada trecho para si mesmos enquanto liam um texto de biologia compreenderam substancialmente mais do que estudantes que leram o mesmo texto duas vezes. O ganho apareceu justamente nas questões que exigiam inferência — não nas de reprodução.
É por isso que Dunlosky e colaboradores [dunlosky2013] classificam a auto-explicação e a interrogação elaborativa como técnicas de utilidade moderada, enquanto sublinhar e reler ficam na categoria de baixa utilidade: as duas primeiras exigem geração, as duas últimas não.
O efeito ajuda a explicar um dado que costuma surpreender: Mueller e Oppenheimer [mueller2014] encontraram desempenho conceitual superior em estudantes que anotaram à mão em comparação com os que anotaram em laptop. A interpretação proposta é que a escrita manual, sendo mais lenta, força a síntese — ao passo que digitar rápido permite transcrição quase literal. Ou seja: a vantagem não estaria no meio, e sim em qual condição o meio impõe.
Limites do efeito
Vale conhecer as fronteiras, porque a versão popularizada costuma exagerar:
- A geração precisa ser bem-sucedida. Tentativas fracassadas sem correção posterior podem até prejudicar.
- Exige base para gerar. Não é possível reformular o que não se entendeu; nesse caso, a nota literal marcada como "não entendi" é a escolha honesta.
- O ganho é sobre o item gerado, não sobre o contexto inteiro. Gerar uma palavra numa frase melhora a memória daquela palavra, e pode até prejudicar a do restante.
- Custa tempo. Reformular tudo é inviável; o critério de seleção continua sendo necessário.
Sobre o achado de Mueller e Oppenheimer especificamente, replicações posteriores encontraram efeitos menores ou nulos em algumas condições. A leitura prudente é que o mecanismo — síntese versus transcrição — está bem sustentado, enquanto a recomendação categórica "escreva à mão" está menos sustentada do que sua popularidade sugere.
Uso prático
- Reformule sempre que puder, e marque explicitamente quando não pôde.
- Feche o livro antes de anotar. A nota fica menos precisa e o aprendizado, maior; a precisão você recupera conferindo depois.
- Explique em voz alta ao terminar uma seção difícil. É auto-explicação, e é gratuita.
- Prefira perguntas a afirmações nos títulos das suas notas: um título em forma de pergunta força geração toda vez que você reencontra a nota.
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Referências
- Slamecka, N. J.; Graf, P. (1978). The generation effect: Delineation of a phenomenon., Journal of Experimental Psychology: Human Learning and Memory 4(6), pp. 592-604 DOI: 10.1037/0278-7393.4.6.592
- Chi, M. T. H.; de Leeuw, N.; Chiu, M.-H.; LaVancher, C. (1994). Eliciting self-explanations improves understanding., Cognitive Science 18(3), pp. 439-477 DOI: 10.1207/s15516709cog1803_3
- Dunlosky, J.; Rawson, K. A.; Marsh, E. J.; Nathan, M. J.; Willingham, D. T. (2013). Improving Students' Learning With Effective Learning Techniques: Promising Directions From Cognitive and Educational Psychology., Psychological Science in the Public Interest 14(1), pp. 4-58 DOI: 10.1177/1529100612453266
- Mueller, P. A.; Oppenheimer, D. M. (2014). The Pen Is Mightier Than the Keyboard: Advantages of Longhand Over Laptop Note Taking., Psychological Science 25(6), pp. 1159-1168 DOI: 10.1177/0956797614524581