Ehrenfried Walther von Tschirnhaus

Ehrenfried Walther von Tschirnhaus

Ehrenfried Walther von Tschirnhaus (1651–1708) foi matemático, físico e filósofo alemão, correspondente de Leibniz e de Spinoza. Aparece neste guia por um motivo específico: sua Medicina mentis (1687) contém uma descrição de método de anotação que antecipa, em quase três séculos, os princípios centrais do Zettelkasten.

Ele é citado explicitamente por Luhmann como influência.

O contexto: a ars excerpendi

O século XVII europeu enfrentou aquilo que os historiadores chamam da primeira crise de sobrecarga informacional. A imprensa produzia mais livros do que qualquer erudito poderia ler, e uma literatura inteira surgiu sobre como extrair e organizar o que se lia — a ars excerpendi, a arte de excerpir.

O produto padrão dessa tradição era o commonplace book: um caderno onde se copiavam passagens notáveis sob rubricas temáticas.

O que Tschirnhaus propõe de diferente

A ruptura dele está em recusar a cópia. Em Medicina mentis, ele argumenta que:

  1. Não se deve copiar o que o autor escreveu, e sim registrar o que se compreendeu, com as próprias palavras.
  2. O registro deve ser feito em folhas soltas, não em cadernos encadernados, porque a ordem útil não é conhecida de antemão.
  3. A ordem deve poder mudar conforme o pensamento avança.
  4. O objetivo é produzir conhecimento novo, não preservar o alheio.

Cada um desses pontos reaparece no Zettelkasten de Luhmann.

A comparação

PrincípioTschirnhaus (1687)Luhmann (séc. XX)
Reformulação com as próprias palavrasCentralCentral
Suporte solto e reorganizávelFolhas avulsasFichas em gavetas
Recusa da ordem temática fixaExplícitaExplícita
ObjetivoDescobertaDescoberta
Conexões explícitas entre registrosImplícitoSistematizado com endereços fixos

A inovação propriamente luhmanniana é a última linha: o endereço permanente que permite referenciar uma ficha específica de forma estável, e portanto construir uma rede.

Por que isso importa

Duas razões práticas, além do interesse histórico:

  1. Desfaz a ideia de que o Zettelkasten é uma invenção do século XX. Ele é um ponto de chegada de uma tradição de trezentos anos sobre como lidar com excesso de leitura.
  2. Mostra que o problema é recorrente, e a solução também. A crise de sobrecarga de 1687 e a de hoje diferem em escala, não em natureza — e a resposta continua sendo a mesma: reformular, fragmentar e conectar.

Leitura

Referências

TSCHIRNHAUS, Ehrenfried Walther von. Medicina mentis sive artis inveniendi praecepta generalia. Amsterdã: Rieuwertsz, 1687.

BLAIR, Ann M. Too much to know: managing scholarly information before the modern age. New Haven: Yale University Press, 2010.